"BIOGRAFIA"

"Samuel C. Costa"

 
Samuel Congo da Costa - Nasceu a 5 de Agosto de 1975. É um cronista negro na cidade de Itajaí/SC, sul do Brasil. Académico do curso de publicidade & Propaganda da Univali de Itajaí Santa Catarina vem contribuindo com a imprensa local e tem textos publicados em site especializados em poesia. 
Mais que de repente, me assusto, na incerteza de que a língua que falo/escrevo tenha a ver com o mundo em que vivo. Já não sei! Pois moro no sul do Brasil e falo/penso português brasileiro com um leve sotaque açoriano. Em uma cidade litorânea catarinense, onde indivíduos vindos do além-mar, há muito, revolveram por aqui aportar bem perto do mar. Mas isto já não interessa mais. Estou em um mundo globalizado/informatizado, e já não sei mais quem realmente sou, e minha realidade local já não me satisfaz mais. Eu penso que nunca satisfez, pelo fato de ser afro-descendente e com o externo/interno estigma de também ser marginalizado por anos de escravidão. Talvez isto justifique certas coisas! Mas isto também não basta! Penso que nada basta neste mundo agora tão pequeno e fugaz.
Mundo artificial diluído nas telas de computadores. Um mundo perdido na auto-estrada pavimentada por fibras ópticas!
Quem sou neste dito mundo luso? Mundo que fala/escreve português. Ambiente que vive português multicolorido, pois se banhou em outras culturas! Onde estão meus irmãos e irmãs que falam/escrevem a mesma língua?
Actual membro "Confrades da Poesia" - Amora / Portugal
 
BILIOGRAFIA:
Horizonte vermelho (versos) em 2006 - Uma Flor chamada margarida (verso e prosa) em 2008.
 
Site: - http://www.paralerepensar.com.br/samuel.htm
 

Safos, Vênus e Atena & algumas deusas mais
(Para Eleane T. da Costa)
 
 
 

Em tempos de celebridades instantâneas!
Que se proliferam em reality Shows...
E devoradas pelas massas...
Sedentas de novidades descartáveis!
E vazias...  
O que sobrou para a mulher de hoje?
Senão...
Ganhar pouco!
Trabalhar muito!
Ser hostilizada em seu vestido cor-de-rosa!
Na academia...   
Se candidatar a presidência?
Parir filhos cada vez mais tarde?
Ser a deípara da vez?
Ou a deia encanta, no imaginário...
...de algum poeta desavisado?
 Se regozijar quando os filhos voltam para casa?
 Quando voltam!
Se converter em estatísticas...
E ficar em casa para sofrer...
...o destino da Maria da Penha?
Talvez não!
Talvez a minha oblação...
Não morreu no vazio!
E os deuses imortais não mais permitam...
Que Cronos devore meus filhos!
E que Safos, Vênus e Atena me abençoe...
Toda vez que eu for me deitar!
E não permitam que eu chore por nada
E que Iemanjá não permita
Que eu seja queimada viva!
Na fogueira em praça pública!    
E que meu reino se expanda para além
Das fronteiras do meu lar...
Quero me libertar das correntes dos láricos
Que os mitos e lendas me tirem do altar!
Da imaterialidade...  
Quero celebras meus dias!
Para além do 8 de Março!
Quero viver meus amores!
E meus dissabores!
Quero ser livre!

 
 
 
 
 
 
EU E TU...
                    (a Rute Margarida Rita)
 
Eu e tu! Um caso complicado...
Uma simbiose
Que ninguém explica...
Tu e eu sozinhos...
Um ocaso de amor
Um amor
Inexplicável
Eu e tu! Um caso complicado
Um caso de amor
Que ninguém explica...
Tu e eu! Juntos andando por ai...
Sozinhos
Livres
Um inexplicável ocaso de amor
Você para mim...
É assim...
Um caso inexplicável
Um sonho da [Pós-Modernidade]
No pós-realismo
Uma realidade complexa & irreal
Um sonho surreal
Andando livremente por ai
Sozinha & livre
Um inexplicável ocaso de amor...
 
 
 
Tumbeiro
 
Amarga e sonha!
Transporta tumbeiro
A negra dor
A negra carne
A carne negra
Lacera e lacera...
 A negra vida
Transporta
Enrique-se
O mundo branco!
O branco luxo
A negra dor
Transporta
E lacera a negra carne
Transborda
De riqueza
O mundo branco!
Mundo reluzente
Racional
Transporta o negro
Ouro
A negra sina
O negro pranto
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Minha vida
(Para Andressa Salvadio Galvani)
 
Acorda
Desperta
Sorri
Levanta
Luta
Chora
Perdi
Ganha
Cai
Sonha
Voa
Vence
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
Talvez

Talvez eu prefira as Ligas camponesas
ao invés do Felinto Muller
Talvez eu prefira o MST
ao invés do Kátia Abreu
Talvez eu prefira o Zumbi do Palmares
ao invés de Caetano de Melo e Castro
Talvez eu prefira Francisco Julião Arruda de Paula
ao invés do Roberto de Oliveira Campos.
Talvez eu prefira Charles Chaplin
Ao invés do J. Edgar Hoover
Talvez eu prefira Martin Luther king
 Ao invés do Thomas Blanton
Talvez eu prefira Luiz Carlos Preste
Ao invés do Plínio Salgado
Talvez eu prefira Léopold Senghor
Ao invés do François Duvalier
SIGNIFICAÇÕES
 
 
 
 
Agora eu sei...
Lutei & lutei 
Mas perdi...
A confiança nas pessoas
Perdi a fé em mim mesmo
Perdi meus direitos mais sagrados
Perdi o rumo
Meus amigos de luta e fé
Perdi a vontade prosseguir em frente
E com rancor renasci
Uma nova pessoa
Cheia de magoas
Contudo, mais puro..
Mais duro
E com toda a ferocidade...
Renasci em mim mesmo
Um outro ser
Que agora desconheço
Mas quem sabe a dor...
Mas quem sabe a esperança
De dias melhores
De ver seu semblante novamente
Quem sabe você de novo
Na minha vida...
De forma avassaladora...
Consumir todo o meu ser
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Surto modernista
 
Não há uma só...
...gota de sangue em cada poema...
[somente o ruído das maquinas]
Que gritam o teu nome...
Não há uma só...
...gota de sangue em cada poema...
É sua voz a gritar o meu nome
Em horas impróprias...
São as suas mãos...
...a vagar pelo meu corpo
Não há uma só...
...gota de sangue em cada poema...
 Às vezes...
...fico a noite a te fitar
E em meus pensamentos...
Estou só!
Na solidão a dois...
E a dor que não passa...
É ferida que não sara...
 
 

 

 

Não! Eu não quero mais ser negro
 
 
Cansei de ser negro
De ser parado pela polícia
Ser confundido com um bandido qualquer
De ter relações promíscuas com os políticos
Sendo sempre massa de manobra
Na mão de algum abnegado...
Não! Eu não quero mais ser negro
Ser minoria nas universidades
Ser tachado de preguiçoso...
Ser o primeiro de lista dos desempregados
Não quero ficar para trás
De tudo
De todos
Das oportunidades
De um futuro melhor
Não quero mais ser negro
Ser excluído de todas as formas
De todas a maneiras
Definitivamente estou casando de celebrar
Meus ritos escondidos
Dos olhos da sociedade
Não quero mais ser negro
E ter a responsabilidade de ser:
No melhor no futebol
Ser bom no pagode
Não...
Não quero mais ter um passado
negro
Que cheira a escravidão
Que cheira a dor
Quero renunciar ao meu futuro
De dor
Não quero mais ser negro
Chega de sofrer
O banzo pós-moderno
 
 
 
 
 
Agnus-Dei
(Para Grace Azambuja)
 
 
Oh divina graça
Aos domingos
À tarde
Oh ave rara
De rara beleza
Ardea
Alfena
Tuberosa
Lilácea odorífera...
Angélica dos jardins
Que encanta
Que a todos encanta
Suprema
Extrema
Divina
Oh divina graça
Beleza rara
De raro perfume
Em alabastros
Eflúvio sutil
Cinamomo sagrado
Pomona de todos os desejos
Deia encantada
Entre as benditas
Bendita seja
Inquieta
Bendita
Bem quista
Amada...
Cantem para ti
Velhas canções
Sagradas
Profanas
Divinas
A muito esquecida
Oh divina graça
Aleurona
Acetamina cristalina
Doce alfenim
Que encanta
Em breves adágios...
Que ama...
Orquídea apaixonada...
 
Noites itajaienses: Acorda Alice
 
 
– Acorda Alice!
E foi assim que Erivaldo Torres foi acordado, no motel barato na zona periférica da cidade portuária. O sexagenário ainda tonto, pelo efeito, do sonífero posto em sua bebida, não entendia nada do que inspetor da policia civil falava. Pois foi o inspetor Roquete Pinto que acordara com leves tapas no rosto. O ‘’micro–empreendedor’’ que estava nu e desorientado foi a quinta vitima nos últimos dois meses. Erivaldo não sabia, mas ele era mais uma vítima do golpe ‘’Boa Noite Cinderela’’.
 – Então senhor, a recepcionista nos deu a descrição completa das duas: uma era ‘’mulata’’ de uns vinte anos tinha um metro e setenta, lábios canudos e longos cabelos lisos e negros. Já a outra também aparentando ter vinte anos, branca de um metro e setenta, cabelos curtos e louros e uma fada tatuada no braço esquerdo! Diz o inspetor a Erivaldo que acabara de consultar seu caderno de anotações. Erivaldo também não sabia e, não tinha como saber, da presença de dois policiais militares postados na porta no lado de fora do quarto. E ficar no lado de fora da porta e, consequentemente das ocorrências a muito não aborrecia mais o Soldado Silveira e o Cabo Bilac.
 –A minha bolsa? Aonde ‘’ta’’ a minha bolsa? Diz o sexagenário recobrando a consciência, e então a vem a última lembrança de duas moças sentadas na mesa do bar na praia.   
 
O velho Caetano
 
̶ Alexandre meu filho, tu sabes qual a melhor forma de se controlar alguém? Saturnino Caetano inquire o filho de forma vaga.
̶ Do que ‘’tas’’ falando velho?
̶ É só deixá-la fazer o que bem entender. E quando sair pela aquela porta afora, meu filho, lembra-te do que teu velho está te dizendo  ̶. O velho metalúrgico e sindicalista aposentado, bem sabia das atividades ilícitas do filho mais novo. E de repente pensa no filho mais velho, na luta para ver Luis Carlos formado em história.
̶ Sei que tu ‘’é’’ mais velho que eu pai. Mas o que sabes da vida de hoje? A pergunta, do filho não atormentar o velho operário. Saturnino não podia olhar através dos óculos escuros que o filho usava, mas bem sabia do ódio que faiscavam naqueles olhos. Já sentira a mesma coisa antes, quando estivera no cárcere, no tempo da repressão, no período que alguns chamam de ‘’anos de chumbo’’.
̶ Sei da minha vida, velho, e não quero que se intrometa em coisas que não sabe! Diz Alexandre com todo ódio do mundo para o pai.  
̶ Sei mais que pensas guri, bem mais! Todo o horror de anos atrás, quando fora dependurado pelos braços e torturado lhe vem à cabeça, com toda a força.
̶ Do que ‘’tas’’ falando, velho ‘’Caetano’’?
̶De nada meu filho, só quero dizer que te amo, e sempre vou te amar filho! Alexandre na porta e pronto para sair, olha para trás e tira o óculo e encara o pai nos olhos, e toda a fúria assassina que Saturnino Caetano presenciara anos atrás, retorna com toda força.
̶ Não sou mais homem ou menos homem que o Calinho, com aquele diploma, pai!
̶ Não é isso que ‘’to’’ falando Xande...
̶ Não me espera para o jantar! Diz Alexandre saindo pela porta afora, sendo tragado pela escuridão da noite. E sequer se volta para o pai ao proferir as últimas palavras. Alexandre leva na mão a cintura com um ato desesperado. Saia com toda a certeza de nunca mais voltar para casa... 
 
 

"CONFRADES DA POESIA"

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