"BIOGRAFIA"

"Filomena Embaló"

 
 
Filomena Embaló nasceu em Angola, em 1956, de nacionalidade guineense, filha de pais cabo-verdianos. Em 1975, os acasos da vida levaram-na de Angola para a Guiné-Bissau, país que adoptou e em cuja labuta dos primeiros anos de independência se forjou a faceta guineense da sua identidade.
Formou-se em Ciências Económicas em França e ocupou cargos na Função Pública Bissau-Guineense, no país e no exterior. Actualmente trabalha em Paris, na organização intergovernamental União Latina.
Tem publicações em revistas e jornais de artigos sobre a economia guineense e literários.
Actualmente é membro de "Confrades da Poesia" – Amora / Portugal.
 
BIBLIOGRAFIA
Tiara", editado em 1999. “Carta Aberta”, uma recolha de contos e textos seus, foi publicada em 2005. « Coração cativo », saído do prelo em 2008, é o seu primeiro livro de poemas
 
Site: - http://www.didinho.org/filomenaembalobiografia.htm
E-mail: fembalo@gmail.com
 
IDENTIDADE
 
 
 
Busco raízes profundas
no sangue das Ilhas
a semente germinada
em terras fartas do Maiombe
a flor desabrochada
nas Colinas do Boé
e encontro
os caminhos cruzados do meu eu!
 
Caminhos de ontem
caminhos de hoje
horizontes infindos
que fazem do meu eu
o Ser de Amanhã
 
Caminhos cruzados do meu eu
trilhados por riquezas sem fronteiras
criastes um Ser
que é ele
o outro
e sou eu!
 
 
Filomena Embaló - Bruxelas, 15/3/93     
 
 
 
 
 
 
 
O menino ganhou a guerra
 
Juro que não sonhei
Vi com os meus olhos
O menino ganhou a guerra !
Matou o monstro da fome
Com a arma da comida
Sentou-se à mesa da Paz
Sua barriga fartou
Fartou também seu coração
Por saber farto o amanhã
E no acalento da fome
A barriga desinchou
Os olhos voltaram a sorrir
A esp’rança sorria no seu rosto
O menino ganhou a Guerra!
 
 
Filomena Embaló - Paris, 20/12/02 
 
 
 
 
 
 
 
Sonho Infinito
 
Trouxa ao ombro
Lá vai o Passado
Costas vergadas
Carga pesada
Ignorância   
Miséria
Guerras
E Fome
Partiu para longe
Destino sem fim
Longe do Homem
Tão massacrado há anos mil!
 
Caminha, caminha
O passo arrastado
Cruza o Futuro
De passo apressado
Ligeira, ligeira a sua carga
Sabedoria
Abastança
Saciedade
E paz
Caminha, caminha
O passo ligeiro
Espera-o o Homem
Encontro marcado há anos mil!  
 
Filomena Embaló - Paris, Dezembro de 2003
 
 
 
 
 
 
 
ACRÓNIMO
 
 
 
Esperança acalentaste
Num futuro risonho
Terra Mãe – Filha de África
Em tuas entranhas
Ressuscitaste o sonho
Razão do teu viver
Armaste teus filhos
Rumo à liberdade
Acreditaste na vitória
Mas os ventos mudaram
 
Os homens também...         
Sem escrúpulos nem pejo
O teu sonho derrubaram
Num cíclico jogo de armas
Honrado seja o teu nome
Oh! Pátria mil vezes violada
 
De onde vem tanto ódio
Entre teus filhos amados?
 
Corre o sangue derramado
Abrem feridas mal saradas
Bate em teu peito a chamada
Recobre as forças Terra – Mãe
Ainda é longa a caminhada
Levanta-te Guiné e desenterra o teu sonho!  

 
 
Filomena Embalo - Charenton le Pont 19/10/04
 
 
 
 
 
 
DESILUSÃO
 
Abate sobre mim
O peso angustiante
De esperança perdida
Da crença desmentida
 
Desmorona-se o mundo de sonhos
Alicerçado em ideias juvenis
Que o correr da vida
Transformou em utopia
 
Nego-me a engolir
O nó da desilusão
Que me estrangula
Me sufoca
 
Nego a entregar-me
A esse pranto vencido
Que me invade o peito
Me deixa muda
Estupefacta
Impotente!
 
Reservo-me o direito de acreditar
Que se sonho existe
Se sonho existe
É o pesadelo em que me encontro!
 
 
 
 
Filomena Embaló - Bissau, 27/05/93
 
 
 
 
 
 
OS  MESTRES  DO  MUNDO
 
 
 
Vieram
levaram tudo
o sonho
a esperança
a vida
até a realidade varreram
e na azáfama da fuga
o vazio arrancaram
com medo que engendrasse
os genes da vida
a luz
e os seus gestos denunciassem
 
Eles...
os mestres do mundo
afogaram o sonho
enforcaram a esperança
apagaram a vida
com um sopro
um estalar de dedos
um sacudir de ombros altivo…
 
Senhores de todos os destinos
intocáveis
nas suas torres de cristal
roubadas ao suor alheio
vieram
levaram tudo
o riso
o pranto
o fôlego
até os rostos desfigurados pela dor
e na azáfama da fuga
os olhos arrancaram
para que não os vissem
e com o olhar os condenassem
 
Eles…
os mestres do mundo
prenderam o riso
amarraram o pranto
asfixiaram o fôlego
num gesto louco
de um estalar de chicote
o olhar altivo...
 
Deuses do universo
senhores de todos os destinos
decidindo a vida e a morte
vieram
levaram tudo
a dignidade
a modéstia
a honestidade
até o pensamento esvaziaram
e na azáfama da fuga
a consciência perderam
por não lhe suportarem o peso
 
Eles…
os mestres do mundo
violaram a dignidade
enterraram a modéstia
venderam a honestidade
num abrir e fechar de olhos
como num truque de magia
o semblante altivo…
 
Senhores absolutos
inverteram a escala de valores
à luz da própria imagem
vieram
levaram tudo
o pão da boca do faminto
o tecto do desabrigado
até a História apagaram
deixando apenas no seu rasto
humilhação
impotência
revolta
que o povo na dor afoga
por iguais armas não possuir
para combater tal violência
que de igual
só tem o ódio
fruto mudo
da fúria destrutiva !
 
Eles
os mestres do mundo
criminosos impunes
de consciência tranquila
barriga farta de ganância
o peito inchado de razão
da legitimidade usurpada
inconscientes da própria ignorância ! ! !
 
 
Filomena Embaló - Vitry sur Seine, 4/05/98
 
 
 
NEM BOTAS NEM CANHÕES
 
 

Trago no corpo
as marcas da vida
No coração
Os sonhos abortados
Na pele as chagas do sofrimento

Meus olhos cegaram
De tanta dor enxergarem
Meus ouvidos ensurdeceram
Com o choro da criança faminta
Minha boca se calou
Para não mais clamar minha dor

Mas no âmago do meu ser
Na minha essência mais profunda
Guardei a força do querer
E nem ventos nem marões
Nem botas nem canhões
Nem sórdidas tentações
Minha marcha travarão

Sigo em busca da verdade
Novos sonhos brotarão
Novos mundos se abrirão
Em cada riso de criança acalentada
Colherei um pedaço de vitória
E de riso em riso
De vitória em vitória
Se vai edificando um mundo melhor!

Filomena Embaló (poetisa guineense)
 
 
 
 
 
SALVÉ O DIA 15 DE AGOSTO
 
 
 
Pelas tuas primaveras
Aqui vamos celebrar
Reservei o melhor champanhe
A festa vai começar!
Brindo eu, brindamos todos
É festa ó minha gente!
Não venham cá com tristezas
Só alegria pode entrar!
 
Digam lá o que quiserem
Isto é mesmo de arrombar
Didinho faz anos hoje
Impossível ignorar!
Ninguém daqui arreda pé
Há bolo com velas e tudo
Oh! Didinho vem assoprar !
 
Feliz aniversário, querido Amigo,
que habitem sempre em ti a crença, a força e o entusiasmo
que te movem nesta luta por uma Guiné justa e próspera!
 
Filomena Embaló - 15.08.2010
 
 
 
 
Decadência
 
a acácia murchou
Secou
As pétalas caíram uma a uma
Sublimaram-se esperanças magnânimas
Legítimas
A realidade tombou
Com o seu manto da morte
Miséria
Fome
Cóleras…
 
A fome apertou
O pai protestou
O filho chorou
A mãe amparou
 
A fome matou
O pai protestou
A policia chegou
E o pai levou
O filho sem forças
Já não chorou
A mãe desamparada
Chorou !
 
Filomena Embalo - Bruxelas, 20/12/96
 
 

"CONFRADES DA POESIA"

www.osconfradesdapoesia.com