"BIOGRAFIA"

"Fernanda Lúcia"

«NO PÓDIO DOS TALENTOS»

26/11/1929 - 04/06/2013

 

«A POESIA É A BELEZA DA VIDA.»

Fernanda Lúcia de Souza Leal dos Santos, nasci no dia 26 de Novembro de 1929, em Lisboa. Sou filha e neta de professores. Morava com os meus avós e mãe no bairro da Lapa onde os meus avós tinham um colégio – Colégio Santa Cruz - que evidentemente frequentei.
Segui os meus estudos no Liceu de Pedro Nunes, perto do Jardim da Estrela, o jardim da minha meninice. Tive excelentes professores que recordo com saudade. Daí fui para a Escola do Magistério. Tirei ao mesmo tempo o curso Completo de Língua e Literatura Francesas de l’Institut Français au Portugal, o que me permitiu leccionar durante alguns anos no Ciclo Preparatório.
Meu marido era também professor, mas de Matemática e Ciências. Casámos em Coimbra e fomos viver para a Lousã onde nasceram os nossos 4 filhos. Trabalhei para o Estado durante 40 anos em algumas escolas em Portugal e em Angola-Lubango (antiga Sá da Bandeira) e Caconda.
 Estivemos 9 anos em Angola. De lá viemos viver todos (excepto a minha Mãe que faleceu lá), para a Costa de Caparica.
Já em criança, fazia pequenos versinhos que a minha Mãe adorava. No Liceu continuei e os meus professores de Português, classificavam e incitavam-me a continuar. Rabiscava em papelinhos, alguns guardei, outros perderam-se... Houve um período da minha vida que nada escrevi, quando perdemos a nossa filha mais velha, já com 23 anos, na faculdade em Coimbra.
Entre Lisboa e Coimbra não sei qual a cidade que mais amo. O meu marido também era de Arganil – Coimbra.
Quando me aposentei já lá vão 20 anos, dediquei-me mais há poesia e à Genealogia da família. Passei a ser rato de biblioteca e durante alguns anos ia para a Torre do Tombo e Biblioteca Nacional, para conservatórias do país etc, etc. O que consegui e depois de organizar tudo, entreguei aos meus filhos, sobrinhos e cunhadas solteiras.
Virei-me depois novamente para a poesia, juntei tudo o que tinha e pela internet descobri “ Ventos que Passam “ e o seu excelente autor, a quem enviei alguns poemas para apreciar. Foi ele que me incentivou. Depois, conheci Maria Vitória Afonso que me enviou um boletim de “ Os Confrades da Poesia “.
O meu entusiasmo intensificou-se com a ajuda de Fernando Reis Costa e Maria Vitória. A ambos agradeço.
Hoje, estou muito satisfeita de fazer parte de “Confrades da Poesia” e também da «I Antologia Poética». Era um sonho!
 
E-mail - fernandalucia@netcabo.pt
 
«ALEMANHA: NOITES DE INVERNO.»
 


È manhã.
De azul veste o firmamento.
O sol sobe pouco no horizonte,
brilha intensamente...
contudo, rapidamente
se torna esbranquiçado,
trémulo, envergonhado...
- Cinzas nuvens, surgindo
de todo o lado.
O azul desaparece
cedo, muito cedo.
O astro-rei adormece
e o dia se entristece...
Uma chuvinha miúda
que molha e nos arrefece.
A claridade esmorece...
e a longa noite desce.
- São quinze horas!
Longas noites nos fiordes,
dos países mais ao norte.
Sopra o vento muito forte,
vento polar que traz frio
e nos provoca arrepio!

Eckernforde/Alemanha
(Junto ao Mar Báltico)
Natal de 2008

         ++++++

    «BALADA DO MAR»


Hoje, resolvi fazer-te um poema!
Eu, que tenho tanto medo de ti!

Tu és a vida, a maternidade, o berço...
tantos seres vivos surgindo
nas profundezas e abismos
que os homens vão descobrindo;
estudando maravilhados, tesouros
que no teu seio permanecem
num "sono" de centenas de anos!

És a estrada que une Continentes!
O espelho azul do firmamento,
quando a lua cheia te ilumina;
abre-se o caminho à poesia...

És a pista para jogos, divertimento,
quando estás com amenas marés
espumas as tuas mansas ondas;
beijando de areias meus pés.

Por vezes enfureces subitamente,
tornas-te furioso, imprevisível,
enches-te de força hercúlea,
devastadora. Levas tudo à frente:
areias, casas, animais, gente...
Depois, serenas, para mostrar
que afinal não és terrível!...
Repara, moro perto de ti,
mas só de longe te vou admirar.
- Pois não acredito em ti, ó mar!

           

         «FIM DO DIA»


Nesta tarde amena de Outono
fui à varanda contemplar o céu:
pequenas nuvens matizadas
pintadas de cores avermelhadas.
Sente-se o cheiro a maresia
e a brisa fresca do fim do dia.
As árvores, como que recortadas
no crepúsculo, abrigam as aves
num lero chilrear já recolhidas.
Há no mar uma calmaria fingida
como se ele não tivesse vida!
(Levando no rosto uma jornada
de trabalho, regressam pessoas
exaustas e em passo apressado.)
- Voltei para o meu silêncio
pensando em dias já distantes...
            «HAITI»


Num país já por si fragilizado
sem estruturas, sem protecção...
Uma grande catástrofe chegou
de dimensões bíblicas - o inferno!
Destruição, morte, dor, escuridão...
- Deixou todo o mundo impressionado.

O que Dante descreveu nos seus poemas,
está ali! Aos nossos olhos, bem patente
o sofrimento de toda aquela gente...
o tempo urge... os minutos são dias,
os dias parecem séculos! Tudo tarda...

Emergem os instintos de sobrevivência.
A desordem é tal... há impotência...
a insegurança predomina e é cruel
para os que precisam de assistência.
"Deus nos auxilie e tenha clemência".

           


    «VERSOS»
 
      (I)


Versos, espelham a alma;
E os sentimentos
De quem escreve
Pensamentos
Crítica
Humor
Conforto
Alegria
Ternura
Dor
Paixão
Amor...

    (II)

O cérebro pensa
O coração dita
A alma Compõe
A caneta dispõe:

Palavras, frases
Mensagens
Que fazem pensar.
Ler; reler; aprender
E... guardar.
 
 




«COIMBRA: QUEIMA DAS FITAS»


Ó Coimbra do Mondego,
e do Amor que eu lá tive.
Da linda Inês em sossego,
na nossa História, inda vive!

Essa Coimbra encantada
e a Lisboa onde nasci;
meu coração não distingue
qual das duas mais amada.

     
 


     «OUTONO»

É uma Estação especial.
O ar torna-se mais leve.
Uma luminosidade
Que não tem igual.
Cheira a terra húmida,
Sente-se lene frescura,
Os dias são mais curtos
E o sol, no seu ocaso,
Tem outra formosura.

 
«ENTREVISTA À CONFRADE Fernanda Lúcia» Fevereiro - 2010
 
Os Confrades da Poesia - Como te chamas e aonde nasceste?
FL - Chamo-me, Fernanda Lúcia de Souza Leal dos Santos, nasci em Lisboa, no Hospital de S. José, freguesia do Socorro, no “ importante” dia de 26 de Novembro de 1929. - É só fazer as contas...
 
CP - Há quanto tempo compões poesia?
FL - Desde criança. Claro que fui evoluíndo e quando estudante liceal com a aprendizagem da literatura, já era apreciada pelos meus professores de Português que sempre me incentivaram a continuar. E assim fui lendo, interpretando e estudando gramaticalmente muitas poesias de diversos autores. A par da leitura compunha os meus poemas que fui guardando, embora se tenham perdido alguns, nas muitas voltas da minha vida.
 
CP - Consideras-te poetisa?
FL - Lendo outros poetas que escrevem muito melhor do que eu, não me considero poetisa. Porém, escrevo o que a minha alma dita.
 
CP - Que representa para ti a poesia?
FL - Representa muito! Para mim é um prazer que me enche as horas e me faz esquecer muitos momentos tristes, embora tenha escrito já alguns poemas, quando os leio, meus olhos se enternecem.
 
CP - Concordas com a afirmação: "O poeta é um fingidor?"
FL - O poeta torneia o verdadeiro sentido das palavras, escreve por vezes em sentido figurado. O poeta expressa, comunica o seu estado de espírito, critica, enaltece o amor, o belo, o Criador.
 
CP - Muitos dizem que os poetas são loucos e que anseiam mudar o mundo...
Qual é a tua opinião?...
FL - É uma verdade. O poeta é um sonhador. Fala naquilo que anseia, no que o magoa, no que devia ser corrigido para bem de todos. Isso não é ser louco. Mudar o mundo não é uma loucura, é sim trabalharmos todos para o mesmo fim; fazer a humanidade mais feliz.
 
CP - Há momentos próprios para escrever, ou escreves a qualquer momento?
FL - Escrevo em qualquer momento. Trago sempre comigo papel e lápis.
 
CP - A poesia revela em ti uma cultura ou um dom artístico?
FL - As duas coisas. Uma completa a outra. São talentos, são dons com que se nasce. Numas pessoas esse dom é mais profundo e os poetas tornam-se célebres, como Luís de Camões, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Miguel Torga, etc, etc... O nosso país tem grandes poetas que nos enchem de orgulho. Pena é que não sejam mais estudados.
 
CP - De que poetas recebeste influências?
FL - Sempre gostei de ler Afonso Lopes Vieira. A sua poesia tem uma grande sensibilidade; para os animais e toda a natureza. João de Deus com a sua Cartilha Maternal foi um pedagogo para a época. Em Guerra Junqueiro, admiro  “ Os Simples “ sendo a  Mãe o tema principal
 
CP - Quais são os teus poetas favoritos?
FL - Afonso Lopes Vieira e Fernando Pessoa
 
CP - A poesia é um bem Universal?
FL - A poesia, é como um licor que se aprecia e fica o sabor durante muito tempo. Nunca se esquece; é um bem universal. Contudo, e infelizmente, não é bem entendida por aqueles a quem é dirigida. Se o fosse, talvez mudassem o seu comportamento...
 
CP - Tens livros publicados?
FL - Não tenho. Mas gostaria de deixar aos meus filho e sobrinhos. Talvez um dia...
 
CP - Já participaste em Antologias? - Recentemente publicamos a - 1 Antologia Poética Digital dos Confrades... - Gostaste?
FL - Nunca tinha participado. Os meus versos eram da “ gaveta “...  Actualmente sinto-me confortada por fazer parte da I Antologia Poética Digital dos Confrades da Poesia. Fiquei encantada e já ofereci aos meus filhos os CDs.
 
CP - Qual foi o último livro que leste?
FL - Estou a ler dois ao mesmo tempo. Um, em prosa, sobre a nossa História, o 1808  ( Rei D. João VI ). O outro é a Ceia dos Cardeais de Júlio Dantas. Estou a lê-lo pela milésima vez. Vi em tempos representada no Teatro Nacional.
 
CP - És a favor ou contra os concursos poéticos?
FL - Não tenho nada contra. Pode ser um incentivo para que se ame muito mais a poesia e se descubra novos talentos.
 
CP - Achas que a poesia está bem divulgada em Portugal?
FL - Nos meios de comunicação pouco se fala. Não há leitura de poesias nem a sua interpretação. Penso que não está bem divulgada. A cultura no nosso País é uma visão a longo prazo. Falta um João Villaret... Nas livrarias existem somente 20% de livros de poesia - segundo os meus cálculos.
 
CP - Tens mais algum hobby além da poesia?
FL - Tenho um que gosto muito, a Filatelia. Colecciono há muitos anos e tenho tudo catalogado. Meu tio,  o aguarelista Alberto de Souza é que me iniciou a saber coleccionar e identificar os selos, tinha eu 10 anos. Ele desenhou alguns, incluindo os da Exposição do Mundo Português em 1941.
 
CP - És contra ou a favor do novo acordo ortográfico?
FL - Sou a favor da eliminação de algumas consoantes mudas, embora eu não o aplique ainda. Estou contra certos plurais, como por exemplo, corrimão-corrimões... - Então eu tenho mões?! Entraram vocábulos novos e ainda bem, porque é sinal que a nossa língua está bem viva. Presentemente há países a estudar a nossa língua. Meu filho, em Kiel, (na Alemanha) já deu lições de português aos marinheiros alemães.
 
CP - Valorizas a amizade?
FL - Valorizo imenso a amizade. Quem não tem Amigos, (a meu ver), é infeliz. Gabo-me de ter amigos de há 50 anos!
 
CP - O que fazias se um amigo te traísse?
FL - Ia ter com ele e procurava saber por que o tinha feito. Nunca o desprezaria, (não faço isso a ninguém), mas jamais voltaria a ter a confiança nele.
 
CP - O que mais aprecias numa pessoa?
FL - A honestidade e a sinceridade. Em suma, aquilo que um verdadeiro amigo deve ter.
 
CP - Como defines o amor?
FL - O amor é um sentimento sublime; que deve existir, não só entre duas pessoas, como por todos os que nos rodeiam e até pelos nossos animais. É o amor que conduz à Paz, é o amor que nos leva a deixar tudo para socorrer o nosso semelhante. Foi por amor que eu fui para Angola. - Foi por amor que Jesus se sacrificou.
 
CP - Acreditas na existência de Deus?
FL - Sim, acredito que toda a natureza foi criada por Ele assim como as leis que regem tudo o que nos rodeia e toda a humanidade.
 
CP - Como foi o tempo vivido em Angola?
FL - Foi um tempo muito preenchido, muito em contacto com os povos, pois ambos éramos professores. Conheci costumes diferentes, regiões lindas e gente boa. Minha Mãe adorava lá estar, os meus filhos não queriam voltar para cá. Os melhores tempos da sua juventude; foi de facto em Sá da Bandeira ( Lubango ) e Caconda. Nas férias de Março fazíamos a viagem no nosso carro por Nova Lisboa ( Huambo ),  Cela, Dondo, Catete e Luanda.  Eram mil e duzentos quilómetros. Instalávamo-nos no hotel Paris, perto do Estádio dos Coqueiros. A gelataria Polo Norte era uma visita obrigatória. Durante o ano íamos também a Moçãmedes visitar uma cunhada minha. Era uma viagem muito bonita. Antes de chegar ao rio Bero passávamos pelo deserto do Giraúl, com lindos cambiantes de castanho e doirado. Depois, as praias eram óptimas e uma alegria para as crianças. Enfim, muitas recordações...
 
CP - Muito se tem escrito e falado sobre a Emancipação da Mulher...  - Achas que a mulher se Emancipou?
FL - A mulher lutou e lutará pela sua Emancipação. Será difícil consegui-lo totalmente, pela sua condição de esposa, mãe e trabalhadora. A sua formação ajudá-la-á a obter bons resultados; em todos os períodos da sua vida. O amor deve subsistir acima de tudo. A mulher hoje está presente em quase todas as profissões, o que representa uma vitória, foi muito difícil de a conseguir.
 
CP - 40 mulheres foram assassinadas em Portugal no ano passado... – Que dizes a isto?
FL - É uma calamidade! Ainda existe a submissão que evita que a mulher queira ser socorrida no seu devido tempo e as leis não ajudam.
 
CP - Ultimamente tem havido assaltos e roubos de toda a espécie... – Sentes-te segura quando sais à rua?
FL - Olhando para o que se passa noutros paízes, Portugal ainda está no princípio, todavia, já começo a duvidar de quem me passa ao lado ou está atrás de mim. Infelizmente tem havido notícias que me deixam muito receosa. E a Internet está cada vez mais “eficiente”...
 
CP - Que diferença notas entre a Juventude actual e a do teu tempo?
FL - Os jovens do meu tempo não eram piores nem melhores que os de agora. Só que existia mais respeito. A Sociedade era diferente. A Comunicação Social era restrita e muito demorada. A Educaçao incipiente dos jovens era dada pelos pais; com muito amor. Os avós, também tinham a sua quota-parte na Educação dos netos. Muitos jovens hoje, passam o tempo sózinhos... e isso é muito mau. Abundam os divórcios e os mais prejudicados são os filhos.
 
CP - Qual é a tua opinião sobre o Núcleo: "Os Confrades da Poesia"?
FL - Quando entrei em contacto convosco, fiquei muito feliz. O núcleo é constitído por pessoas dignas e que compôem lindas poesias. Sinto-me feliz por me terem aceitado.
 
CP - O que representa para ti o Boletim dos Confrades?
FL - Representa a leitura de um belo trabalho; que leio e releio com muito prazer, sentindo-me muito satisfeita por ver publicados também alguns trabalhos meus. Devo esta satisfação ao incentivo que me foi dado pelos Confrades e amigos Fernando Reis Costa (de Coimbra) e Maria Vitória Afonso (de Amora).
 
CP - Consideras útil este tipo de Comunicação?
FL - Toda a comunicação que é construtiva tem sempre utilidade. Esta, além de ser construtiva, também é educativa e informativa.
 
CP - Achas que o Boletim está bem conceituado?
FL - Está muito bem estruturado e dou os parabéns a todos aqueles que entram na sua elaboração e o melhoram de ano para ano.
 
CP - Podemos contar com a tua contribuição nas rubricas pendentes no Boletim, além da tua colaboração habitual? 
FL - Dentro do que me for possível, podem contar comigo.
 
CP - Para finalizar, queres acrescentar mais alguma coisa?
FL - Sinto muito prazer em pertencer ao núcleo dos Confrades da Poesia.
 

"CONFRADES DA POESIA"

www.osconfradesdapoesia.com