"BIOGRAFIA"

"Carlos Leite Ribeiro"

 
 
Carlos Leite Ribeiro, nasceu em Lisboa, na freguesia de São Jorge de Arroios, no dia 05 de Março de 1937.  
Mora desde Setembro de 1967, na Marinha Grande (Leiria - Centro de Portugal).
(Prof. Mestre)
Pequeno curriculum vitae:
Curso de Educação Física (1962)
Curso Geral de História (Politécnico 1964) com Mestrado em 1976
Curso Geral de Geografia (Politécnico 1967) com Mestrado em 1984
E outros cursos não oficiais: 8 Cursos de Radiodifusão (1986 a 1992)
Idealizador do Portal CEN - "Cá Estamos Nós", fundado em 15 de Julho de 1998.
Membro Honorário e de Honra da ALMECE - Academia de Letras Municipais do Estado do Ceará (Brasil); Membro de “Confrades da Poesia” – Amora / Portugal. Participou em várias colectâneas. Tem obras publicadas em ebooks-digitais.
 
Bibliografia:
As Horas do Destino
 
Sites - www.carlosleiteribeiro.caestamosnos.org - www.caestamosnos.org
 
 
A  Á R V O R E


Eu sou uma árvore, e
 já há muito tempo.
Embora já não seja nova
 nem a mesma de alguns
 anos atrás, sou feliz.
Até muito mais feliz que então !
Todos os dias vivo um dia diferente.
À minha frente nunca passam duas
pessoas completamente iguais.
As pessoas são como nós,
todas diferentes umas das outras.
Vejo todos os dias caras diferentes,
de pessoas novas,
menos jovens e velhas - e sou feliz!
E, para quem diz " Quem vê caras não vê corações;
o mundo para ela
encontra-se metido entre quatro paredes,
 pois não podem ver outros olhos com
toda a sua profundidade, e então,
necessariamente,
não podem ver nenhum coração ...
Há pedaços de mim que se multiplicam,
mas eu não crescerei muito mais.
O meu mundo e o meu espaço
será sempre este para sempre.
Por vezes alguém passa por mim e risca-me
ou tira um pedaço de casca ...
Áh ... no outro dia, um par de namorados
rabiscou na minha casca um par de
coraçõeszinhos, atravessados por uma flecha
(a flecha do Cúpido ...).
Achei tanta graça;
que até tive vontade de os chamar e de lhes
desejar muitas felicidades e um brilhante futuro.
Mas, também já têm feito chichi
contra mim e até outras coisas ...
mas são presentes que eu dispenso muito bem !
Posso não Ter estômago, intestinos,
pernas, braços ou cara, mas tenho
coração, que é só meu !
Podem rirem-se, uma árvore
com coração, mas é real ...
Vou contar-vos um grande segredo:
todas as noites, quando a Lua aparece e
faz estremecer os corações mais frígidos
 e que envolve com o seu luar os corações
mais apaixonados pelos cantos mais escuros,
eu arranjo-me, componho muito bem os
 meus ramos e, vou ter com o meu namorado ...
chiuuu, porque isto é segredo !
E lá ficamos os dois muito;
entrelaçados um no outro,
trocando olhares, carícias e carinhos,
alimentando um amor que
eu considero platónico.
Depois, volto para o meu lugar,
fecho as pálpebras,
mesmo sem ter olhos para fechar.
E faço hó-hó ...
 
 
Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande
 
A Maçã
 
 
 
E eu aqui metida nesta ambulância, cheia de dores.
Nunca mais chegamos ao hospital ! e tudo começou por causa de uma maçã!...
 
Era eu pequenita e andava na escola primária, e, no trajecto de regresso à minha pobre casa, passava sempre pela frutaria do pai do Artur.
 
Naquele dia, num dos expositores que ficavam em cima do passeio, estavam em exposição uma belas e lustrosas maçãs. Os meus pais eram pobres e eu já há muito que não comia fruta.
Parei extasiada a admirar as maçãs. Tive a tentação de roubar uma, mas hesitei. Foi quando atrás de mim apareceu o Artur, que me disse:
"Ana, estas maçãs devem ser muito saborosas!...".
"Sim ! devem ser uma delícia, Artur ..." - respondi eu ao meu colega de escola.
"Porque não compras uma ?!" - perguntou-me o Artur.
"Olha, porque não tenho dinheiro. Bem sabes que os meus pais são muito pobres" - disse-lhe já quando me afastava.
No outro dia, na hora do recreio, o Artur abeirou-se de mim, e, timidamente, entregou-me um saco de papel, dizendo:
"Toma, isto é para ti, Ana".
Curiosamente, rasguei o saco e, lá dentro estava uma bela e lustrosa maçã!
As lágrimas saltaram-me e tive vontade de o abraçar.
Mas o Artur já se tinha retirado ...
 
Durante anos, o Artur sempre me presenteou com saquinhos de papel, tendo lá dentro sempre uma maçã.
E, por causa da maçã, um belo dia casamos; e, também por causa da maçã, vou aqui dentro desta ambulância a caminho do hospital, onde conto dar à luz o nosso primeiro filho.
 
Uma maçã dada pela Eva, dizem que atrapalhou o Adão; e uma maçã dada pelo Artur, está a atrapalhar-me e dar-me muitas dores.
Mas dentro em pouco o fruto do nosso grande amor nascerá, e, tudo voltará à normalidade.
 
E tudo isto por causa de uma maçã !!!
 
 
Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande
 
 
 
A Bola do Natal - (episódio verídico)

 
Ao aproximar do Natal, comecei a pedir, por intercessão do Menino Jesus, ao “meu” Pai Natal, que me desse uma bola de futebol.
Ainda hoje estou surpreso por o “meu” Pai Natal ter acedido ao meu celestial pedido. Bom, na manhã do dia 25 daquele ano já tão longínquo, encontrei a tão pedida e desejada bola de futebol. Fiquei encantado e logo a minha imaginação começou a voar imaginando-me desde logo um crak do mundo futebolístico. Conseguia meter golos imagináveis, tanto com remates fulminantes como em cabeçada miraculosas. O Pelé e o Eusébio, ainda não conhecidos, de certeza que seriam ultrapassados pelo meu virtuosismo. O pior foi o “meu” Pai Natal me avisar logo que o bola ficava guardada para quando todos saíssemos para ver o Sporting, eu a levar para no Campo Grande dar uns “toques”. Que decepção pois assim, não poderia mostrar aos meus amigos toda a minha habilidade natural no mundo futebolístico.
O tempo passou e um belo dia, estando de férias escolares, aproveitando não estar ninguém em casa, fui buscar a dita cuja ao armário do guarda fatos (guarda-roupa), e fui para um jardim da casa de um amigo jogar futebol. Este meu amigo ficou a guarda-redes (goleiro), por acaso tio de uma grande guarda-redes português, o Damas. Mas voltando à minha excepcional exibição futebolística, atirava a bola de encontro a uma parede e rematava para a baliza, que era formata por dois paus espetados no chão. O meu amigo Zeca, pedia-me a todo o momento:
- Carlinhos, não remates com muita força e sempre rasteiro.
Mas eu estava empolgado com a minha exibição. Mais uma vez atirei a bola para a parede, ela ressaltou e eu, sem deixar bater a bola no chão, com o meu “famoso” pé esquerdo, rematei fortíssimo. O guarda-redes nem a viu; foi um remate digno do Roberto Carlos nos seus tempos áureos.
Bom, foi um monumental golo – isso foi! O pior é que a “estúpida” da bola só parou de encontro a uma velha janela (daquela com muitos vidros) da casa de uma vizinha muito chata, estilhaçando-a toda …
A D. Albertina chegou ao que restava da janela e começo logo a barafustar e a ameaçar que ia contar tudo a meu pai. Que stress eu passei, para mais, a D. Albertina, pelos vistos, não admirava nada a minha habilidade (nata) futebolística.
Quando ganhei coragem para ir para casa, a D. Albertina estava a mandar vir (discutir) com minha avó paterna. Até tive pena da D. Albertina, uma senhora muito pequenina e minha avó muito alta e forte.
- A Senhora Albertina vá para sua casa, que a janela será concertada. Por favor, não me chateie mais que eu já estou a ficar muito enervada.
A minha avó, com a ajuda de minhas tias, lá conseguiram comprar uma janela nova.
E o Carlinhos, mais uma vez, safou-se de os papás saberem que ele não era, propriamente dito, um santinho…
(in – memórias de Carlos Leite Ribeiro)
 
Nota: esta bola teria um fim pouco “digno”. Nas chamadas férias grandes escolares, a malta da Estefânia e a malta do Matadouro, faziam intermináveis encontros futebolísticos na parada do Liceu Camões, mesmo em frente onde morava o nosso querido amigo e engenheiro. Tito Olívio – mais tarde transferiu-se para Faro. Conseguíamos abrir a porta da Escola António Arroio e daí passávamos à parada do Liceu.
Num desses desafios, que virava aos 10 e terminava aos 20, eu ao cortar um perigosa jogada dos gajos do Matadouro, apliquei o meu “famoso” pé esquerdo e rematei fortíssimo para onde estava virado. Mais uma vez, a “estúpida” da bola saiu direita a uma grande janela do ginásio do Liceu. Para evitar confusões, todos abandonamos rapidamente o “estádio”. E a bola lá ficou …
Mas a caixa onde “religiosamente” guardava a dita cuja, ficou anos dentro do armário, para dar a ilusão a meus pais que a bola continuava lá dentro.
 
Ao ler estes velhos apontamentos, não pude deixar de rir e pensar no Caminha. A Casa deste grande amigo, também tem as janelas deste tipo, ou seja, com muitos vidros. Ao ler estes apontamentos, tenho a certeza que o Caminha pensou:
- “Ainda bem que não tinha cá em casa nenhuma bola de futebol, pois senão, aquele “Mané”, com a sua habilidade “natural” para o futebol, me teria partido as janelas !”
 
Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande
 
 
 
S O L I D Ã O

 

Bem cedo habituei-me a estar só.

Já várias vezes tentei descrever a palavra "solidão" por gestos.
Fingi que chorava, assumi um ar desamparado e até murmurei o que pensei que fossem sons solitários. Mas a definição "solitário"é muito difícil de descrever - é mais fácil senti-la.
Saber distinguir entre sozinho e o solitário, pode ser importante, mas eu encontro alívio e paz na solidão.
Habituei-me à solidão.
Um escritor gosta de estar só, escrever como se tivesse a falar consigo próprio, sem precisar de gente para arrumar as cenas.
A solidão na juventude é triste porque até então não se aprendeu a arte de viver confortavelmente com ela. Em geral, só na maturidade é que a solidão se torna deliciosa.
Hoje, quando me sinto perplexo, procuro na solidão, na eloquência do silêncio, e espero que as respostas cheguem. E elas chegam ...
O escritor - um eremita na caverna da sua mente - muitas vezes é uma pessoa solitária. Mas a solidão também pode ser um doce sofrimento, ao que dizem, torna-nos mais sinceros.
Ao passarmos por uma rua movimentada, em geral passamos pelas pessoas sem olhar para elas. Porém, numa rua tranquila, quando nos aproximamos de uma pessoa sozinha, a cumprimentamos, e até falamos com ela. É um acto estranho, provocado pelo magnetismo inexplicável de duas pessoas que se sentem sós.
A ideia que eu tenho de um lugar perfeito para morar, é uma casa no meio dum pinhal, à beira de um lago, com muitos animais em redor, e da qual eu não pudesse ver outra qualquer.
Nem mesmo uma chaminé distante, para não destruir a minha sensação de tranquilidade. De noite, as janelas iluminadas, são olhos curiosos que me espreitam
Aqueles que vivem compreensivamente com a solidão, acham-na uma companheira tolerável, simpática e até empolgante.
Para quem gosta, a solidão tem os seus encantos.
Hoje, na minha idade, se eu fosse representar a solidão, havia de sorrir e fazer um ar satisfeito.
 
Carlos Leite Ribeiro
 
 
 
O   D E S T I N O
 
A aparelhagem sonora do hospital fez-se ouvir:
"Doutora Maria José, doutora Maria José, é favor dirigir-se ao bloco operatório número dois, com a máxima urgência".
Maria José estava no bar a tomar a bica, depois de muitas horas de intenso trabalho. Há dias em que os acidentes se sucedem a um ritmo vertiginoso, e, este era um deles. Mas no dia seguinte, entraria de férias e estaria trinta dias fora dos problemas do hospital.
Maria José acabou de beber apressadamente a bica e, dirigiu-se ao bloco n. 2. Começou a sentir algo estranho, como uma angustia da qual não encontrava explicação...
Subiu as escadas, empurrou várias portas e entrou no bloco operatório. - "O que se passa, Maria do Carmo ?... tanta urgência...". Não completou a frase, pois, a enfermeira-chefe logo a informou: "Senhora doutora, chegou um caso muito grave, ou melhor, mais grave do que aqueles que tivemos hoje".
-"Então o que é que aconteceu?..."
- "Outro acidentado num desastre de viação. Já está na "mesa". Estão aqui as análises e as radiografias. É licenciado em Economia e chama-se João Lacerda.."'
Maria José dirigiu-se então à mesa das operações, destapou o rosto do paciente e, num misto de surpresa e de pena, exclamou:
- "Meu Deus, é o João !...".

O seu pensamento recuou alguns anos, ao tempo em que ainda era estudante liceal. Foi quando conheceu o João  -  o seu primeiro amor.
Foi uma paixão intensa e até sublime, como não podia existir outra igual. Acabaram o liceu ao mesmo tempo e, então deu-se o inevitável afastamento. O João ficou em Lisboa a cursar Economia, enquanto ela foi para Coimbra, onde os pais já residiam. Durante certo tempo ainda houve trocas de telefonemas e de cartas, depois, o silêncio. Mais tarde veio a saber que o João tinha casado, e, no Verão seguinte, também ela casou.
 
No seu sub-inconsciente, nos seus sonhos secretos, Maria José sempre pensou nele. E era ele, o João Lacerda, que estava ali entre a vida e a morte, à espera que ela o ajudasse a sobreviver...
- "Senhora Doutora, está tudo pronto para se começar a operar"- lembrou-lhe a enfermeira-chefe, a Maria do Carmo.

A operação foi um êxito. Ao fim de seis horas, o doente podia considerar-se fora do perigo.
Maria José dirigui-se novamente ao bar onde ia tomar a última "bica", antes de partir para férias.
Faltavam poucos minutos para que o seu marido e os seus dois filhos a viessem buscar, para então, todos os quatro começassem a gozar umas merecidas férias. Sorriu. Lembrou-se do João Lacerda.
Voltou a sorrir e pensou:
"Ainda bem que consegui salvar o meu "príncipe encantado", o herói dos meus sonhos secretos e dos momentos mais críticos que a vida nos reserva ..."
 
Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande
 
 
 
 

"CONFRADES DA POESIA"

www.confradesdapoesia.pt