"BIOGRAFIA"

"António Barroso"

 

António José Barradas Barroso – (nome literário António Barroso); nasceu em Vila Viçosa, berço natal de Florbela Espanca,
em 07 de Outubro de 1934. Depois de completada a instrução primária e o exame de admissão ao liceu, ingressou no Instituto Militar dos Pupilos do Exército, onde permaneceu sete anos em regime de internato, tendo transitado para a Academia Militar (antiga Escola do Exército) para frequentar o curso de Administração Militar. Hoje, com 76 anos, é Coronel do Exército, na situação de reforma.
O seu gosto pela escrita começou já nos Pupilos do Exército e a inclinação para a poesia foi-lhe incutida pelo seu antigo professor de português, de quem guarda saudosa recordação. A sua vida profissional, com constantes deslocações, não lhe permitiu debruçar-se sobre a poesia, com maior disponibilidade, como gostaria. Assim, só quando regressou de Moçambique, em 1974, dedicou-se de alma e coração, com mais tempo e atenção, sobre um tema de que tanto gosta, mas despreocupadamente, guardando tudo o que ia escrevendo nos mais diversos suportes, desde grandes folhas de jornais a pequenos bilhetes de autocarro. Entretanto, sua mulher, filhos e netos “obrigaram-lhe” a digitalizar tudo o que tinha escrito, por se aperceberem da sua falta de cuidado, o que deu origem a que muitas coisas já se tivessem perdido. Também, por insistência de todos, em 2007, começou a enviar alguns poemas para concursos e jogos florais, tendo, durante estes cinco anos, obtido cerca de 140 prémios, desde primeiros até menções honrosas, em Portugal, Brasil, Itália e República Dominicana.  Para além de poemas em centenas de cirandas e antologias.
Prémio Bocage em Setembro de 2012 no XIV Concurso Literário “Manuel Maria Barbosa Du Bocage” – Organização: Lasa – Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão
Por convite, que muito lhe honrou e aceitou, é membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras, em Cachoeiro do Itapemirim; Academia Rio-Grandina de Letras em Rio Grande e sócio do Clube dos Poetas Livres, em Florianópolis, todos no Brasil. Ainda membro da AVSPE – Academia Virtual Sala de Poetas e Escritores; “Confrades da Poesia” – Amora / Portugal; também associado do Clube da Simpatia, em Olhão.
 
Bibliografia:
“Memórias do tempo que passa”, “Devaneios de Outono” e “Último fôlego”, estando em preparação um quarto livro, com o título “…antes que chegue o inverno”.
 
Sites.:
 

Amores de verão
 
 
Tardes de estio do meu Alentejo
Com moças belas, na rua, passando,
Vagos olhares, rubor de desejo,
E no meu coração as ia guardando.
 
E iam, e vinham, se tinham ensejo,
E eu, mudo e quedo, amava-as, olhando
O ar furtivo que me atirava um beijo
Perdido nas pedras que iam pisando.
 
E na tarde morna, cálida, amena,
Nasciam amores cheios de pena
P’los que morriam no mesmo momento,
 
Ao ver as moças passando, maldosas,
Co’o lenço escondendo as faces de rosas
E risos enchendo o meu pensamento.
 
 
 
 
Ainda mais
(A minha mulher Olívia)
 
Busquei, querido amor, lá nesses céus,
A luz que me dá vida, que me guia,
Busquei a sua origem, dia a dia,
Até que a encontrei nos olhos teus.
 
Ergui, bem alto, a voz, orei a Deus
E pedi-Lhe, repleto de alegria,
Que as emoções que, junto a ti, sentia,
Fossem, para sempre, os sonhos meus.
 
E se o amor me diz que a busca é finda,
Meu coração desperta em mil natais
Cada um brilhando em cor tão linda,
 
Que os nossos segredos serão iguais:
- Tu dizes que me queres mais ainda!
- Eu juro que te quero ainda mais!
 
 
 
 
Noite de solidão
 
O luar já desceu, na noite escura,
mas nada me faz companhia.
Acabou-se a luz do dia,
e o silêncio é uma constante.
Só vislumbro a moldura
onde o teu retrato está colocado,
tacteio a cama, a meu lado,
e nada sinto, nada,
nem o teu beijo de ternura,
nem uma carícia de amante
ou a tua palavra enamorada.
Escuto, lá fora, o vento
assobiar, como um lamento,
e a escuridão que me rodeia
prende-me nos laços
da enorme saudade
de que minha alma está cheia.
Falta-me o calor dos teus abraços
que me fazia pulsar o coração,
com profunda ansiedade,
com a meiguice e a candura
de cada beijo, em cada batida.
E a manhã me devolverá a vida
quando teus lábios, com ternura,
findarem a longa noite de solidão!...
 
 
 
 
 
Te amo eternamente
 
 
Andei perdido por vales e montes
seguindo sempre a direcção dos ventos,
tentando vislumbrar os horizontes,
procurando a razão dos pensamentos.
 
O amor passou, por mim, tão de fugida,
como estrela cadente em céu escuro,
que não pude, ou não quis dar-lhe guarida,
e não lhe abri as portas do meu muro.
 
Embrenhei-me em trabalhos, sem um fim,
cansei meu corpo fraco, sem pensar
e quando, finalmente, olhei p’ra mim,
só pude ver deserto sem palmar.
 
Um dia, te encontrei e, com doçura,
senti meu peito arfar no mesmo instante,
como se iniciasse uma aventura
com o coração sendo dominante.
 
E então, o amor surgiu com força tal,
se evadiu da prisão, rompeu corrente,
gritou, ao mundo inteiro, num sinal:
- Amor, meu amor, te amo, eternamente!
 
 
 
Intempérie      
 
 
Fui à janela fechada,
Não vi noite nem vi dia,
Não vi tarde, não vi nada,
Olhei p’ra fora, chovia.
 
Andava na rua, molhado,
Vendo a janela vazia,
Senti-me desamparado,
Olhei p’ra dentro, chovia.
 
Nem o guarda chuva aberto,
Da tormenta, protegia,
Quis ir longe, fiquei perto,
Olhei p’ro lado, chovia.
 
Vendo o céu tão pardacento,
Perguntei o que haveria,
Nem me respondeu o vento,
Olhei p’ra cima, chovia.
 
Fiquei parado, na rua,
Sem me importar se queria
Ter o sol ou ter a lua,
Olhei p’ra baixo, chovia.
 
Ilusões e sonhos meus
Já não me dão alegria,
Sejam nobres ou plebeus,
Por todo o lado chovia.
 
Terminou tanto aguaceiro
Que culminou, por inteiro,
No sol quente que chegou.
 
Agora, veio a acalmia,
Olhei tudo, não chovia,
E a minha alma já secou.
Pétalas secas
 
 
A rosa que tu me deste,
secou
sem saber que alguém a abandonou
sem um adeus de despedida,
sem uma palavra de amor.
 
Colhi as pétalas, já sem vida,
daquela formosa flor
que me ofereceste,
meti-as num livro, de que muito gosto,
que guardei no quarto, numa gaveta
onde ponho o que tenho de mais precioso.
 
Tenho lá uma moldura com o teu rosto
e um poema dum poeta
famoso
que fala também duma flor
em toda a sua forma, sempre pura,
como bálsamo ou como cura
 para doenças de amor.
 
Com carinho, folheio-o, por vezes,
e olho as pétalas murchas, descoloridas,
ilusões esmagadas numa folha,
que trazem um mundo de recordações
sem tino, a esmo, sem escolha,
mas que deixam aflorar
lágrimas de incontidas emoções
que logo se cobrem com um sorriso,
ou melhor, com um esgar,
de tristeza.
 
De ti, não espero mais flores,
nem sonho amores
dum coração que já foi jardim,
porque, agora, para mim,
quando chega o relembrar desse passado
de opereta,
subo ao meu quarto e, sossegado,
sento-me, por um momento,
ordeno o pensamento,
e… abro a gaveta. 
  
 
 
 
 
Deixa-me partir
 
 
Deixa-me partir,
não procures seguir meus passos
como uma sombra errante.
O calor dos teus abraços,
ou o beijo provocante
que a longa espera
provocava,
já não consigo sentir.
 
Deixa-me partir,
sem lágrimas ou censuras,
que nem mesmo as tuas juras
renovam a primavera
que, então, brilhava
na nossa vida,
sempre a sorrir.
 
Deixa-me partir,
que nosso amor findou.
Por muito que custe admitir,
já não há cumplicidade
entre nós dois, em cada gesto,
de resto,
agora que tudo acabou,
apenas fica a saudade
desse existir.
 
Deixa-me partir,
não agarres a lapela
do meu casaco amarrotado,
como se eu fosse fugir.
Da janela,
podes fazer a tua despedida
com uns acenos finais,
que eu vou seguir a minha vida,
não volto mais.
 
Deixa-me partir…
 
 
 
 
 
Sublime adoração
 
 
Adoro a luz suave do seu meigo olhar
Quais estrelas perdidas no céu infindo,
Vagueando envoltas pelo luar, tão lindo,
Vindo meus olhos, serena e feliz, beijar.
 
Adoro, loucamente, o seu perfume etéreo,
Pedaço de si mesma que em meu corpo rola,
Quebrando, por encanto, o tom altivo e sério,
Mudado em sorrisos e dado como esmola.
 
Adoro a sua boca rubra, quente, dessas
Que a um santo faz gemer em subtil tremor,
Boca sensual que recorda mil promessas
Promessas de ventura, de prazer, de amor.
 
Adoro o seu cabelo flutuando ao vento,
Nas faces rosadas, ansioso, me quedo,
Que os lábios parece pedirem-me, a medo,
Um beijo fugaz em um súplice lamento.
 
Adoro o seu corpo de Vénus esculpida,
Ante o colo de garça, respiro bem fundo,
Os seios que espreitam a cobiça do mundo
São pomos maduros duma deusa atrevida.
 
Adoro ver, perplexo, seu perfil d´antanho,
Despi-la, com o olhar, é sublime tortura,
Mas adoro, ainda mais, pela fechadura,
Vê-la, soberba, entrar em capitoso banho.
 
 
O motivo
 
 
Se há, dentro de nós, um santuário
De tantas emoções que nos percorrem,
São esses sentimentos relicário
De que todos os poetas se socorrem.
 
À fantasia e ao sonho imaginário,
Dedico mil poemas que me ocorrem,
A uns dou vida, em forma de diário,
Outros vão passando e, assim, morrem.
 
Queres que te defina o belo, a vida,
O ar que me rodeia, a dor sentida,
A flor que brilha, o sonho que eu abraço!
 
São momentos fugazes que a alma abriga,
Por isso, não me peças que eu te diga
A quem dedico os versos qu’inda faço.
 
 

"CONFRADES DA POESIA"

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